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Jeitos, manias, histórias. Abreviações, preocupações, carismas. Calidez, invenções, memórias. Ideias, palavreados, glórias. Ninguém faria o que fizemos se soubesse que terminaria assim, sem mais nem menos. Sem princípios, sem estereótipos, sem nada. Nada mesmo, nem amor, nem carinho, só um punhadinho de lembranças mornas. Lamentável, lamentável. Pois éramos felizes! Veementes! Apaixonados! Olha só o que somos hoje em dia, um amontoado de nada! Matérias absurdamente inúteis posicionadas no espaço, ou melhor, ocupando espaço. Perdemos o sentido, vagamos indecentemente sozinhos. Um para cada lado, um em cada esquina, sem abraços, sem olhares, sorrisos e conversas. Sem café, estamos sem café quente, há uma velha xícara, líquido embolorado… Este é o nosso final, o bolor por trás do armário. Deplorável, meu amigo, deplorável.

Dona Anastácia, 1978  (via setembriar)

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Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim. Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Vinicius de Moraes  (via setembriar)

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Eu sei que atrás desse universo de aparências, das diferenças todas, a esperança é preservada. Nas xícaras sujas de ontem o café de cada manhã é servido. Mas existe uma palavra que não suporto ouvir e dela não me conformo. Eu acredito em tudo, mas quero você agora! Eu te amo pelas tuas faltas, pelo teu corpo marcado, pelas tuas cicatrizes, pelas tuas loucuras todas, minha vida. Eu amo as tuas mãos, mesmo que por causa delas eu não saiba o que fazer das minhas. Amo o teu jogo triste e as tuas roupas sujas é aqui em casa que eu lavo. Eu amo a tua alegria mesmo fora de si, te amo pela tua essência e te amo até pelo que você podia ter sido, se a maré das circunstâncias não tivesse te rebanhado nas águas do equívoco. Te amo nas horas infernais e na vida sem tempo. Te amo pelas crianças e futuras rugas. Te amo pelas tuas ilusões perdidas e pelo teus sonhos inúteis. Amo teu sistema de vida e morte, te amo pelas tuas entradas, saídas e bandeiras e te amo desde os teus pés até o que te escapa. Te amo de alma para alma e mais que as palavras, ainda que seja através delas que eu me defendo quando digo que te amo mais que o silêncio dos momentos difíceis, quando o próprio amor vacila.

Fernando Pessoa.    (via setembriar)

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Não vamos sair nos perdendo entre as escolhas. Quer dizer, você não precisa fazer de cada passo um drama eterno, uma coisa definitiva, um sofrimento sem fim. Não precisa nunca mais voltar atrás ou refazer o seu caminho. Vamos, sim, colocar tudo de nós, mas não vamos ser tolos a ponto de sofrer nas horas desnecessárias. Já disse uma atriz bonita numa dessas entrevistas que vi por aí, citando outro alguém que não lembrava, algo como: “felizes são os corações flexíveis, pois nunca serão partidos”. Felizes somos nós, que aprendemos logo que sempre há uma nova dor, aquela não é a última. Felizes somos nós, os flexíveis na vida, mesmo que tomados pela emoção e esquecidos da razão.

Camila Costa.   (via setembriar)

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Mas nada faço. Permaneço em pé no meio do quarto e a porta se fecha sobre mim. E vejo os telhados onde jogávamos migalhas de pão para os passarinhos, escondidos para não assustá-los, até que eles viessem, mas não vinham nunca, era difícil seduzir os que têm asas, já sabíamos, mas ainda assim continuávamos jogando migalhas que a chuva dissolvia, intocadas.

— Caio Fernando Abreu. Visita, in: O Ovo Apunhalado (via caiofernandoabreu)

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Que a vida é mesmo coisa muito frágil,
uma bobagem,
uma irrelevância,
diante da eternidade do amor de quem se ama!

— Nando Reis (via sobre-ela)

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