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Eu quero aprender cada vez mais a considerar a necessidade das coisas como o belo em si – assim, eu serei um daqueles que tornam as coisas belas, amor fati: que seja este de agora em diante o meu amor! Eu não vou fazer guerra contra o feio, eu não o acusarei mais, eu não acusarei nem mesmo os acusadores. Suspender o olhar, que esta seja minha única forma de negar. Eu não quero, a partir desse momento, ser outra coisa senão pura afirmação.

— Friedrich Nietzsche (via oxigenio-dapalavra)

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E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!” Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que responderias: “Tu és um deus, e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta, diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?” Pesaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo mesmo e com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?

Nietzsche.  (via reclinado)

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Acho que te devo um pedido de desculpas. É que nem eu mesmo gosto muito de mim, e fico meio assustado quando alguém me diz que consegue isso. É que você parecia minha amiga, só minha amiga. Você fala como uma amiga. Me cumprimenta como amiga. Me telefona e me convida para cinemas como uma amiga. Seu riso é de amiga. O seu abraço é de amiga. Nada além de amiga, entende? Amiga? Sei que andei falando coisas sem pensar. Me esforcei pra deixar quieto, ficar de boca calada, não fazer merda. Quase deu certo. Você sabe, sou meio blá. Olha, sei que andei falhando todas essas vezes, nos últimos meses. Em minha defesa, não era bem eu. Só estava tentando ser uma outra coisa, sei lá, algo que pudesse merecer você. Como eu poderia adivinhar que alguém como você gostaria de mim, assim desse jeito atrapalhado que eu sou? Um dia, eu sei, você vai entender os meus motivos. E talvez eu os entenda também. Você estava meio etílica, mas sei que foi honesta, pelo menos na hora em que disse aqueles troços. Não sei o nome disso que estamos sentindo um pelo outro e também não me importa. Pode ser o ápice ou o precipício, e tudo bem. E também não sei se teremos habilidade para cultivar isso por três semanas ou por três décadas inteiras. Só sei que agora estou interessado em saber como será o próximo passo.

Gabito Nunes.  (via extinta)

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Eu preciso fugir de você, eu necessito. Mas todas as vezes que sou forte suficiente para dar dois passos pra frente, algo me puxa, me faz sentir aquela curiosidade de olhar pra trás, talvez pra dar aquela ultima olhada em você - porque é mais forte do que eu - e dai tudo me volta. Volta a sensação gostosa de te conhecer, e volta todas as vezes em que eu chorei e você humildemente enxugou todas as minhas lagrimas, e quando não foi capaz de conte-las chorou comigo. Volta as vezes em que você ficou em silêncio me observando dormir, e todas as vezes que me convenceu do quão bonita eu era por dentro e por fora. E volta todas as vezes em que eu me senti sensual, que eu me senti mulher no seus braços, e que só neles eu me senti realmente segura. Volta que não importa o quão forte eu seja pra ir embora, eu nunca serei capaz de virar as costas e não olhar pra trás, só pra espiar como você se sai sem mim, porque terá sempre algo, uma cheiro, um filme, uma melodia, ou meras palavras e diálogos, que me lembrará que lá atrás ainda vai estar você, vai estar o nós, é aquela felicidade estupidamente absurda que eu tanto sonhei pra mim.

Carpinejando.   (via morbidavel)

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Quantos livros você largou na juventude simplesmente porque não estava com tempo, com o espírito e a paciência, com o clima necessário para cruzar a linha final? E eram criações ruins? Talvez não. Vai ver não era o momento certo. E quem vai dizer que, no futuro – ou um dia desses, na próxima década, sei lá – você não vai esbarrar com o clássico na prateleira de uma biblioteca pública e lembrar com carinho do dia em que tentou encarar a personagem e o enredo, porém, por vários motivos – que agora nem têm mais importância – você não o fez, não foi até o fim. Certos amores também são assim, eu acho.

Gabito Nunes.  (via cerejeiro)

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A gente foi se delineando no sentimento mais delicado, aquele que fica à margem das paixões súbitas. A gente desabrochou um punhado de afeto, dessa alegriazinha que faz cócegas nos lábios, traz um sorriso pra boca, deixando o olhar meio abandonado. A gente já foi se aproximando com a sutileza dos desapegados. Vazios de posse, mas não destituídos de afago: quanto menos ansiosos, mais e mais preenchidos. A gente foi se conhecendo na beirada das curiosidades, sem pressa. E nos divertimos com a qualidade das histórias que engrossavam nossas gargalhadas. A gente mal sabia ou queria saber o que estava nos acontecendo. Um dia, nos abraçamos à noite e, quando percebemos, já estava amanhecendo.

Marla de Queiroz. (via recomendar)

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